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BRASIL, RIO DE JANEIRO, Homem, de 36 a 45 anos, Portuguese, Arte e cultura, Poesia e fotografia


O que é isto?


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Tragédia anunciada


Primeiros dias outonais. Há dois ou três anos. O calor causticante ainda era intenso, parecia o auge dos dias mais quentes da estação que acabara. Um dos verões com temperaturas insuportáveis, as mais elevadas dos últimos tempos. João caminhava pelas ruas próximas da Central do Brasil em direção a um dos galpões que ficam detrás da torre do famoso relógio, mal conservadas estações de transportes alternativos para a Baixada Fluminense. Embora essa fosse uma rotina diária, seu olhar ainda não se acostumara à degradação urbana que conferia a região ­— continua da mesma forma até hoje ­— uma visão dantesca do descaso e abandono, tanto por parte do setor público quanto pelos próprios usuários.
De repente uma lata vazia de refrigerante tilinta no asfalto indo depositar-se na sarjeta bem à frente dos seus pés, subitamente seus olhos se cruzam com os da mulher que a atirara bem a tempo de perceber o movimento da sua mão ainda no ar; não contendo a perplexidade, a indaga sem meias palavras:
— Senhora! Não percebes que há uma lata de lixo bem ao seu lado?!
— Eu não sou a única pessoa a fazer isto, ademais, se eu não correr, vou acabar perdendo meu ônibus, vê se não me amola com essa baboseira, vai me fazer atrasar ainda mais (!)
— Eh, você não é mesmo a única. Mas poderia ser a primeira a contribuir na tentativa de querer mudar hábitos arraigados, o que poderia melhorar, em muito, os acessos e aparências das nossas vias e, consequentemente, proporcionaria uma superior qualidade de vida para todos nós.
— Ora! Tenho outras preocupações mais importantes... E dando de ombros, desviou o interlocutor perdendo-se de vista entre os transeuntes apressados. Alguns desses passantes, também sem a menor cerimônia, largavam pelo caminho guardanapos amassados, copos descartáveis, latas e afins... Até jornais e revistas lidos eram arremessadas ao léu sem a mínima preocupação de que tais materiais poderiam causar entupimentos nas galerias pluviais. Todo esse lixo se acumulava aos montes pelas ruas e junto ao meio-fio das calçadas.
João, incrédulo, recolheu a latinha, depositou-a na lixeira e continuou a passos largos ao seu destino. Posto que precisasse garantir um lugar na fila que já se fazia longa e espiralada no aguardo da condução.
(...)
É sempre a mesma coisa, a cada verão a impressão que se tem é de temperaturas mais e mais quentes. A enorme massa da população carioca e fluminense, pouco assistida, cansada de ser submetida às mazelas há muito conhecidas, convive passivelmente com tamanha falta de interesse na resolução dos problemas que se banalizam à medida que o tempo passa.
(...)
Primeira semana da estação das folhas caídas, mesmo tendo passado esse tempo, dois ou três anos, João ainda cumpre a sua rotina diária, mudou apenas o tipo de condução, utilizando-se agora dos trens, desloca-se do município de Nilópolis, de segunda a sexta-feira, para a região da Central onde cumpre expediente como porteiro de um condomínio comercial; não consegue esquecer aquele diálogo, e a enxurrada que sucederia as primeiras horas daquela fatídica noite. Ocasião em que teve apenas tempo de chegar a casa para que os céus da região do Grande Rio desabassem em torrentes tempestuosas. Junto da família, agradeceu a Deus por já se encontrar protegido sob o teto do seu humilde lar que, embora paupérrimo, sempre o mantém no máximo de segurança possível.
Com o amanhecer viera o caos, a triste rotina que a população teria de enfrentar. Contabilizar os prejuízos causados pelo dilúvio, e eram tantos que a própria Defesa Civil não conseguia dá vazão, seria a tarefa mais iminente: árvores destroçadas pelos fortes ventos, carros arrastados pelas caudalosas enchentes, telhados arrancados, casas destruídas, postes arriados, falta de energia elétrica em vários bairros da cidade, encostas que vieram abaixo levando tudo que encontrava pela frente e indo parar somente nos sopés dos morros.
(...)
Qual doloroso foi ver estampada nas páginas dos jornais que circularam nos dias que se seguiram, a foto daquela mulher e de outras tantas vítimas. Não eram imagens nítidas, havia muita destruição, destroços revirados em meio ao lamaçal, mas tinha certeza sobre uma dessas vítimas, tratava-se da mesma pessoa com quem tivera um breve diálogo, ou quem sabe não poderia chamar de breve discussão acerca da importância de não se jogar lixo nas ruas e encostas. Aquela mulher fora sugada pelas forças das águas que inundaram as margens de um rio que tem seu curso ao largo da comunidade onde morava. A tal senhora teve sua vida ceifada talvez sem nem se dá conta que contribuíra para o ocorrido. Não foi a única a sofrer tragicamente com a falta de educação, o descaso e a desordem urbana intensificada depois de uma intensa chuva de verão.
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Foto: Amalri Nascimento (Diferentemente do que costumo fazer, esta imagem não tem relação com o texto).

Texto: Amalri Nascimento - Publicado na Antologia "O Melhor do Conto Brasileiro" - Junho/2010 - Câmara Brasileira de Jovens Escritores (CBJE).

Visitem a homepage http://www.camarabrasileira.com - cliquem em cima das capinhas dos livros (seletivas de março, abril e maio), meu nome está linkado (em ordem alfabética) para acesso aos meus contos/poemas selecionados. Tambám na página principal, clicando na minha foto, podem ler a minha entrevista.

02/06/2010 Publicada por Amalri Nascimento


Meu camarada Amalri, passando por aqui pude perceber o quanto você escreve bem... Voltarei com mais tempo para melhor apreciar seus contos e poesias... Grande abraço e fica com Deus.

09/07/2011 22:30 Luiz Amaral

hummm sumiu mesmo é !!saudades de i mmenino!!bjuss

17/06/2011 23:12 Val Corrêa Santos

Bom dia Amalri!!O elixir da vida é o amor transbordante em cada coração, pois só o amor é capaz de transformar muitas vidas.Tenha uma ótima sexta feira.Bjo.

15/10/2010 09:42 ELIANA. http://e.mtmt3.nafoto.net PR.

Amalri, tudo bem?Passando pra lhe desejar uma boa noite e um ótimo final de semana!!Uma ótima mensagem, com certeza!Meu amigo,tudo de bom a você...fica com Deus!Beijo.

22/07/2010 17:31 ELIANA. http://e.mtmt3.nafoto.net PR.

Eiiii... faz um tempão que não venho aqui, mas estou tentando voltar à rotina depois de tantos dias de muita tristeza, mas sei que tudo irá passar e minha vida voltará ao normal. Quanto ao texto... Que textooo!! Muito bom. Parabénsss.

09/07/2010 19:45 Meure http://meurecarneiro.fotoblog.uol.com.br

Belíssimo seu fotoblog! Adorei! Li sua entrevista na CBJE, (também estou por lá) e vim conhecer um pouquinho mais de vc! É linda sua escrita! Parabéns! Beijinho de luz! *-*

08/07/2010 12:19 Rosilene Fontana delicate_ro@hotmail.com http://ofantasticomundodaro.blogspot.com/ Criciuma-SC

Te indicamos para o selo: "Blog de ouro". Criado por Zina e indicado pelo Ed. Estou tentando! Entre em nossa página. Parabéns! Ainda não consegui inserir o selo em nosso Blog. Demorei muito se você já recebeu este selo, estamos confirmando seu prêmio. Bjs

17/06/2010 17:04 Rita&João http://excobrapianos.nafoto.net Volta Redonda RJ

Prazer em te conhecer! Prazer estar aqui e saber que é bom levantar o tapete para varrer sujeiras escondidas. A verdade é triste: Somos indignos de cuidar de um planeta tão lindo! Somos responsáveis por tudo que a natureza nos dá em troco. Ela é forte e perigosa, por temor deveríamos respeitá-la. Outro dia avisei a uma linda e chique mulher, que ela deixara cair um papel de bombom no chão! Acredita? Ela me olhou nos olhos e me odiou. Catei o papel na sua presença e o guardei até a lixeira mais próxima. No silêncio nos tornamos cúmplices! Parabéns!!!

07/06/2010 18:12 Rita excobrapianos.nafoto.net

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